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#340 – Os impasses da representação da escravidão na Literatura Brasileira desde o século 19 | Priscila Figueiredo

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Priscila Figueiredo falará sobre os impasses da representação da escravidão na Literatura Brasileira desde o século 19, ou melhor, sobre a dificuldade em dar representação literária ao que veio se constituir como nosso assunto grotesco por excelência e como tal passível de ser interditado, como se entre nós as prerrogativas românticas não tivessem exigido sua figuração, ao contrário do que ocorria na literatura europeia, processo bem descrito no prefácio-manifesto que Victor Hugo escreveu para a sua peça Cromwell. Tomando certa liberdade de comparação, talvez seja possível arriscar que entre nós um correspondente dessa poética tenha sido o debate entre Alencar e Nabuco, no qual este recrimina no já célebre escritor o protagonismo de escravos em duas de suas obras dramáticas. Não obstante interditos dessa ordem, que, como avisa Roberto Schwarz logo no início de seu ensaio “As ideias fora de lugar”, teriam levado a literatura brasileira a se centrar não no nexo escravista, mas na relação entre senhores e homens/mulheres pobres livres, portanto no sistema de prestação e contraprestação de favores que vinculavam essas classes, não deixou de haver tentativas de tocar literariamente nesse núcleo melindroso do trabalho compulsório e em todo o conjunto de mutilações que ele implicou para proprietários e servos. As obras em que isso se deu, no entanto, parecem recorrer a estratégias mais ou menos similares entre si. Nalgumas das mais significativas percebemos a dramatização irônica ou retórica de uma espécie de auto-inibição do narrador ou eu poético ao se aproximar dessa realidade, dramatização que visa, porém, legitimar a difícil figuração a que ele se propõe do espetáculo “infame e vil”, como dele se fala em “Navio negreiro”. Meditação, de Gonçalves Dias, escrito no início dos anos 40 do século 19, alguns poemas de Castro Alves, como o já mencionado, e Quincas Borba, de Machado de Assis, serão comparados dessa perspectiva, que não desaparecerá no século 20, como podemos identificar em Infância, de Graciliano Ramos, e A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, por exemplo, nos quais deparamos com figuras da herança escravista.


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